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Festival Futurama #1

John Romão, Diretor Artístico

Como se o vento viesse com seu bailado.
E numa orgia de cores, as borboletas.
Como se as fontes trouxessem derramado,
Vibrantes, um canto de poetas.
—  Virgínia Dias, “Quadro Vivo”

Em 2021 iniciámos a programação regular do Futurama com um conjunto de atividades ancoradas em processos de experimentação e colaboração, em diálogos artísticos entre práticas diferentes (tradicionais e contemporâneas), projetos educativos e participativos, que constituem o pilar da nossa programação. Ao todo, passaram pela nossa programação mais de 100 artistas e coletivos, muitas vozes e linguagens vindas do Alentejo e de outras regiões do país que abriram caminho para o festival que agora iniciamos.

A 1ª edição do Festival Futurama inaugura um novo circuito de programação, diverso e inclusivo, representativo e transdisciplinar, no Baixo Alentejo. Com uma dinâmica de movimento vibrante entre territórios geográficos, territórios artísticos e espaços diversos, a programação decorre durante quatro fins de semana, em Mértola (30 de setembro), Beja (7 e 8 de outubro), Serpa (14 e 15 de outubro) e Castro Verde (21 e 22 de outubro). Espaços patrimoniais, culturais e naturais dos quatro municípios vão acolher concertos, instalações, performances, filmes e workshops de artistas portugueses e estrangeiros.

Por um lado, o Festival enquadra a estreia mundial de processos de criação que foram iniciados no Baixo Alentejo o ano passado, através de residências artísticas (o filme “A Terra Faz o Homem” de Cláudia Ribeiro), de atividades regulares como as Constelações (o concerto “Música Cigana Camões Yanomami” do poeta e artista visual António Poppe com o grupo de música cigana La Família Gitana) ou do projeto Cantexto, que reúne oito grupos de cante alentejano (dois de cada município, de Beja, Serpa, Mértola e Castro Verde) com oito escritores contemporâneos (Djaimilia Pereira de Almeida, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, José Luís Peixoto, Matilde Campilho, Patrícia Portela, Tiago Rodrigues, Valério Romão) e os compositores Armando Torrão e Paulo Ribeiro. O Festival contextualiza ainda a apresentação pública de breves performances e instalações que resultam de uma aposta na formação e criação artística junto dos mais jovens, como é exemplo o projeto Artistas nas Escolas (os coreógrafos Gustavo Ciríaco, Sónia Baptista, os arquitetos/artistas Os Espacialistas e a designer Alexandra Cabral desenvolveram workshops com alunos das escolas secundárias locais) e a Geração Futurama, que apresenta uma performance com jovens locais, coordenada pelo artista Tiago Cadete.

Por outro lado, o público vai poder conhecer em primeira mão colaborações inéditas entre artistas portugueses e espanhóis na área da música: começamos em Mértola com dois jovens prodígios, Gaspar Varela junta-se a Yerai Cortés para um concerto que junta a guitarra portuguesa e a guitarra flamenca; em Beja, Filipe Sambado dialoga com a compositora e violoncelista Yamila, conhecida pelas suas experimentações com estilos barrocos, folclore e música eletrónica; a harpista espanhola Angélica Salvi junta-se aos Tocadores de Viola Campaniça de Castro Verde para nos presentearem com melodias e sonoridades que certamente nos vão arrepiar; Pedro da Linha com Álvaro Romero ajudam-nos a romper fronteiras com o seu concerto dançante de modos populares portugueses e andaluzes, entre a voz e a electrónica, entre a pista e o sentimento, entre o fandango e o flamenco. Já no âmbito das artes visuais, contamos com workshops ou instalações da alentejana Carincur com João Pedro Fonseca, mas também de Wasted Rita, Fidel Évora e Fiumani, que se apresentam pela primeira vez no Alentejo. Artistas com grande projeção internacional, os performers Ana Borralho & João Galante e a coreógrafa Cláudia Dias, marcam presença pela primeira vez no Baixo Alentejo para dirigirem dois workshops abertos à comunidade local, em Castro Verde e Beja, que resultam em duas performances.

A visão romantizada e saudosista de um Baixo Alentejo a preto e branco não está senão no arquivo de memórias de uma certa geração e de quem desistiu de enxergar novos futuros. É preciso ter coragem para ver o que está à nossa frente e à nossa volta, os pirilampos que cintilam na escura noite de que fala Pier Paolo Pasolini, a orgia de cores de que fala Virgínia Dias, são as forças de uma natureza que está viva e que é preciso abraçar, dançar, brincar, pensar, aceitar, conviver e saber responder, porque constituem a nossa identidade. São exemplo disso os filmes que mostramos e que documentam ou estabelecem correspondências com o território do Baixo Alentejo, ao se questionarem estereótipos no cante alentejano (“A Terra Faz o Homem” de Cláudia Ribeiro, em estreia mundial), expor-se a luta pela visibilidade e dignidade dos direitos dos trabalhadores africanos explorados no sistema agrícola em Itália (filme “O Novo Evangelho” de Milo Rau, em estreia nacional), revela-se um intrincado mosaico musical, cultural, social e geográfico que se desenrola a partir da música tradicional, como é o retrato do novo flamenco sevilhano protagonizado por Rosalía (“Nueve Sevillas” de Gonzalo García Pelayo e Pedro G. Romero), partilhar-se histórias de figuras femininas e ativistas fundamentais na nossa história, como a ecoativista indiana Vandana Shiva, que ganhou destaque nos movimentos de economia de sementes e alimentos orgânicos e está a inspirar uma cruzada internacional transformadora (“As Sementes de Vandana Shiva” de Camilla Becket e James Becket, em estreia nacional) e partilha-se também um documentário sobre a importância da música no quotidiano da comunidade cigana portuguesa (“A Música Invisível” de Tiago Pereira).

Não só queremos que o vento venha com seu bailado, como escreve a camponesa e poetisa alentejana Virgínia Dias, mas queremos dançar com ventos que se cruzem vindos de distintos lugares. As festas do Festival Futurama ficam a cargo de três mulheres djs afrodescendentes que têm marcado o país e o mundo: Nídia é um dos maiores nomes da música eletrónica em Portugal, brinca com conceções de modernidade e incorpora elementos do hip-hop, R&B ou grime; já a Dj Stá, oriunda de Beja, e a Dj ZenGrxl, com raízes alentejanas, jogam com estilos de música afrohouse, afrobeat e amapiano. Dois dos agitadores das noites bejenses, João Melgueira e Vítor Domingos, juntam-se também para partilharem os seus sets criativos e ecléticos. 

Num forte compromisso com a representatividade e a diversidade, a programação do Festival Futurama inclui ainda o trabalho de Puta da Silva, multiartista afrotravesti imigrante, ativista LGBTQIAP+, que apresenta um espetáculo performativo e visceral com a sua banda, em Serpa, num diálogo com o funk brasileiro mais arrojado. Prosseguindo uma reflexão sobre os valores de Abril, as Embaixadoras Futurama (coletivo informal que reflete sobre programação, produção e comunicação cultural) celebram a liberdade e, com cartazes em branco colados nas paredes de Mértola, Beja, Serpa e Castro Verde desafiam as e os residentes a partilhar por escrito as suas visões de liberdade, respostas que podem ser partilhadas com o hashtag #oquetefazlivre e darão lugar a performances. 

Destaco ainda a parceria do Festival Futurama com a Amnistia Internacional de Portugal, um movimento global com mais de 10 milhões de pessoas que luta pela defesa dos direitos humanos. Com sessões agendadas na Escola Secundária Diogo Gouveia e na Escola Secundária de Mértola, a Amnistia Internacional irá dirigir um workshop sobre direitos humanos e sobre como as artes e a cultura têm um potencial ativista no combate à injustiça, à repressão dos direitos e liberdades coletivas.

O Festival Futurama propõe uma nova vibração artística que se faz de cruzamentos de artistas de imenso prestígio, que viajam pelos mais prestigiados teatros, museus, centros culturais e festivais do país e do mundo, e que ganham a partir de agora, no Baixo Alentejo, uma nova casa e laboratório para experimentarem com outros artistas, outras práticas e o património tão rico desta região. Do desenho desta programação espero que sejam semeadas novas sensibilidades, novas perguntas e reflexões, mais diálogos e mais curiosidade. Dirigida a um público intergeracional, novos e velhos são convidados a descobrir e a participar neste autêntico laboratório de experimentação, de criação e de partilha que o Festival Futurama ativa em quatro municípios. E porque queremos que o acesso a esta programação transdisciplinar aconteça da forma mais inclusiva e acessível possível, caberá a cada espectador e espectadora definir o valor do seu bilhete para cada atividade, que sugerimos que seja a partir do valor simbólico de 1€. Fica ao critério de cada um/a contribuir com o valor que puder e quiser.

Esta programação é o resultado de um trabalho árduo e dedicado, de uma equipa estrutural pequena e implicada, de afinidades e de confiança. Agradeço aos nossos parceiros institucionais, artistas e produtores, por acreditarem que é possível colorir o território e a experiência com outras cores e formatos. À Direção-Geral das Artes, à Direção-Regional de Cultura do Alentejo, à Câmara Municipal de Serpa, à Câmara Municipal de Castro Verde, à Câmara Municipal de Mértola, à Câmara Municipal de Beja, à Fundação Millennium BCP, à Santa Casa da Misericórdia de Beja, agradeço os apoios que viabilizam a construção deste primeiro passo do Festival Futurama. Continuemos, passo a passo, a imaginar futuros mais justos, representativos, inclusivos e diversos que passam pelas artes e pela cultura no Baixo Alentejo.

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